Quando o primeiro Mass Effect foi lançado lá em 2007, ninguém imaginava o que estava por vir. Era óbvio que o game seria seguido de algumas sequências, mas quantas?

Acabamos vendo o nascimento de uma das trilogias mais icônicas de todos os tempos. Um dos poucos jogos que podem se vangloriar por ter conseguido oferecer muito mais do que uma simples experiência de troca de tiros, mas por também ter nos possibilitado uma relação única com um cast de personagens memoráveis, com tramas próprias e gradientes de comportamento únicos. A verdade, é que o final de Mass Effect 3 me causou muito mais tristeza por saber que seria a última vez que eu veria o meu time, do que pelo fim da história propriamente dita.

Eis então que a Eletronic Arts e a Bioware resolveram aproveitar a franquia e lançar um novo jogo dentro do mesmo universo. Mas como fazer isso sem ter nenhuma relação com os jogos anteriores e sem afetar o plot já criado sem mandar tudo para o “espaço”? Simples, pega todo mundo e envia para oura galáxia! Simples.

Mass Effect Andromeda foi um jogo que causou comoção desde que foi anunciado no ano passado. Com a missão de continuar a saga de Mass Effect implementando uma série de novidades, o jogo teve de se desligar do seu passado e dar um jeito de continuar o seu legado de outra maneira. Para isso, os desenvolvedores decidiram que uma lacuna de 630 anos poderia resolver o problema, e de fato resolveu.

Para começo de história, os eventos de Mass Effect Andromeda se passam muito, mas muito no futuro. O fim da trilogia original não ficou somente em outro lugar no espaço, mas no tempo também, dando o ambiente perfeito para que uma nova história possa ser construída a partir do nada.

Vale aqui dar uma leve pincelada no enredo para que o resto desta análise possa ser entendido de maneira mais fácil. Paralelamente aos eventos ocorridos no final do primeiro jogo de Mass Effect, um grupo de pessoas que se denomina “A Iniciativa Andromeda” decidiu que era hora de povoar outra galáxia e deixar toda a treta de guerra contra os Proteans nas mãos de Shepard & Cia. Ou seja, enquanto o pau está comendo, você e mais uma quantidade enorme de pessoas resolvem embarcar numa viagem ousada que levaria 630 anos para ser concluída. Chegando lá, a missão seria encontrar planetas habitáveis e estabelecer uma nova sociedade, com novas regras e regada de paz.

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Ao jogador cabe assumir o papel de um dos “Ryder”. Sim, são três: o pai e os dois filhos gêmeos. Qual gêmeo é encarnado pelo jogador depende do sexo do personagem escolhido ou criado. Alec Ryder, o pai, é na verdade o Explorador da iniciativa Andromeda e tem como função encontrar meios para levar a arca dos humanos até um dos planetas escolhidos, mas o problema é que uma série de eventos acabam dificultando esse processo e no fim das contas, o cargo de Explorador acaba caindo no colo do jogador.

Foi aí que encontrei o meu grande primeiro desafio do jogo: criar um personagem de que gostasse. O sistema de criação de personagens de Mass Effect Andromeda é realmente ruim. Tão ruim, que chega a dar raiva. Existem uma série de “presets” de aparência que podem ser escolhidos pelo jogador, mas ao invés do jogo lhe oferecer maneiras de modifica-los ao seu bel prazer, ele parece somente oferecer maneiras de você deixá-los mais bizarros ainda. Além disso, os personagens já prontos também não são lá grandes coisas, e por causa disso eu já comecei a partida sentindo uma certa antipatia pelo meu personagem, algo que não aconteceu quando assumi o manto do lendário Comandante Shepard.

A partir daí o jogo começa e já é possível perceber que Andromeda bebeu muito da fonte de Dragon Age: Inquisition. Na verdade, fica claro logo nos primeiros momentos do jogo que o pessoal da Bioware tentou repetir o sucesso de Dragon Age, replicando uma série de elementos de gameplay em Mass Effect. Praticamente uma receita certa de sucesso, mas que infelizmente, nesse caso, não deu muito certo assim.

Algo que fica claro logo no início é a similaridade de SAM – uma inteligência artificial que dá algumas habilidades extras para jogador – com a marca do inquisidor de Dragon Age: Inquisition. Mas, diferentemente da marca mágica do jogo de 2014, SAM não tem a mesma “simpatia”, mesmo que possua personalidade e a habilidade de falar. Tudo, pode que sua origem parece um tanto quanto forçada em alguns momentos da história e em alguns momentos me fez pensar que se tal maravilha tecnológica era realmente possível na época de Mass Effect 2, por que diabos não foi utilizada quando todo universo era ameaçado? Na verdade, o jogo até dá uma explicação para isso, mas ele é tão pífia que alguns – como eu – preferem ignora-la.

Outra característica que infelizmente não é tão similar à Dragon Age é o desenvolvimento da história e dos personagens. Logo de início, o plot e o desenrolar do jogo fazem com que o jogador tenha a sensação de que o game não pode ser ruim. Mas ao avançar um pouco mais, logo fica evidente que ele não é tudo aquilo que se esperava. O time de apoio que tem como responsabilidade auxiliar o Explorador na sua missão também não é tão carismático e é de longe, o prior grupo de pessoas que eu já vi em um jogo da Bioware.

Aqui vale a pena fazer um adendo para expressar o quanto eu me decepcionei nesse aspecto. Seja em Mass Effect ou em Dragon Age, o jogador sempre tinha a impressão de estar rodeado de pessoas que podiam fazer a diferença. De NPC’s que faziam valer a pena as horas dedicadas ao diálogo e exploração. Mas em Andromeda isso não acontece. Na verdade, são poucos os personagens que realmente parecem valer a pena, o que me fez ter a impressão de que todos os companheiros que valiam a pena ficaram para trás, a uma galáxia de distância.

Outro ponto bastante polêmico são os gráficos e as animações dos personagens que começaram dando problemas logo no lançamento do jogo. Os gráficos estão realmente muito mais bonitos e a construção dos cenários é realmente boa. Mas as animações faciais…

Eu não sei se preciso mesmo falar muito sobre elas, afinal de contas já existe uma saturação de vídeos comentando sobre o assunto. De qualquer forma, vale dizer de que os problemas parecem depender principalmente do “preset” de personagem escolhido pelo jogador. Eu não tive tantos problemas com o meu “Ryder”, mas existem alguns companheiros que apresentam bugs na movimentação facial bem gritantes em animações que simplesmente não poderiam acontecer.

E cutscenes é o que não fala em Mass Effect Andromeda, afinal de contas, o dialogo sempre fez parte do gameplay durante toda a série. Mas uma diferença entre a trilogia original e o novo jogo da série é justamente a forma de expressão do personagem principal com os NPC’s. Mais uma vez, o jogador tem a possibilidade de responder as indagações de múltiplas formas, levando em consideração aspectos lógicos, emocionais e etc., mas infelizmente parece que a forma como você responde não tem mais tanto efeito quanto em jogos anteriores, já que o sistema “Paragon/Renegade” simplesmente não existe mais. Eu já tenho algumas boas horas de jogo e até agora, não tive a oportunidade de socar ninguém por qualquer besteira que tenham me falado.

Apesar dos pontos negativos mencionados acima que tem relação com a parte mais lúdica da história, o combate continua ótimo e tão frenético quanto nos jogos anteriores. Na verdade, ouso dizer que está ainda melhor. A quantidade de armas disponíveis agora, além das armaduras e consumíveis deram uma cara nova ao jogo e proporcionaram mais dinamismo à troca de tiros com os inimigos. Além disso, um novo sistema de movimentação que inclui pulos e esquiva fazem com que você possa se locomover com mais facilidade pelo cenário, procurando covers mais rapidamente quando necessário. Aliás, não é mais necessário apertar um botão específico para que o personagem se esconda atrás de alguma coisa. Agora é tudo automático, e por mais que tenha funcionado bem durante o meu período de avaliação, eu acho que sinto falta de ter mais controle sobre isso.

Para finalizar, falta falar do novo sistema de exploração que na minha opinião, é o ponto mais alto do jogo. Diferentemente dos títulos anteriores, Mass Effect Andromeda permite que o jogador se aventure mais pelo cenário em busca de minérios e outros recursos. Apesar da exploração espacial – aquela de ficar indo de planeta em planeta atrás de recursos – ter sofrido severas reduções, as aventuras pelos cenários do jogo seguem o mesmo modelo de Dragon Age: Inquisitivo e são realmente sensacionais. Dois novos elementos foram introduzidos e ajudaram a melhorar bastante a experiência: o scanner e o sistema de suporte a vida.

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Claramente baseados em filmes de ficção científica, ambos são extremamente úteis e permitem uma verdadeira releitura na forma como você explora o cenário. O sistema de suporte à vida é basicamente a habilidade que a sua armadura lhe proporciona de sobreviver em condições extremas. Como os planetas apresentam condições absurdas de temperatura e radiação, o jogador se vê obrigado a melhorar sua logística antes de sair desembestado por aí procurando missões, o que torna tudo muito mais dinâmico e desafiador. Já o scanner permite que o jogador analise certos objetos e ganhe pontos de pesquisa por isso, trocando-os mais tarde por novas armas, armaduras e potencializadores no novo sistema de pesquisa e desenvolvimento adicionado ao jogo.

Mas infelizmente, todas essas novidades não parecem ter sido suficientes para tornar Mass Effect Andromeda em um grande jogo. O game não é necessariamente ruim, mas decepciona ao mostrar claramente que poderia ter sido mais. Em tempos onde o hype é o principal inimigo de um jogo, é triste ver que Mass Effect Andromeda não conseguiu ser melhor nem do que o próprio Dragon Age Inquisition, jogo imediatamente anterior da Bioware e que serviu de inspiração em vários pontos durante o desenvolvimento. Apesar de ter me proporcionados bons momentos, a história fraca e a falta de algo que faça o jogador ter vontade de realmente “entrar no mundinho” do jogo me fizeram sentir mais decepção do que prazer em alguns momentos, sendo mais decisivos no momento de escolher a nota do jogo do que os próprios problemas técnicos dos gráficos e animações.

Portanto, posso dizer que Mass Effect Andromeda não é um jogo ruim, mas infelizmente, está longe de ser algo que faça jus a série original e que tinha tudo para ser melhor caso tivesse sido melhor explorado pela Bioware. Vamos torcer para que no caso de uma sequência vir mesmo a existir, ela consiga polir as arestas e trazer a franquia para o seu lugar de destaque, como deve ser.

Review elaborado com uma cópia do jogo para PS4 Pro fornecida pela EA do Brasil.

João Víctor Balestrin Sartor é colaborador e sex-symbol do Critical Hits. Admirador das boas histórias, almeja de verdade escrever um livro algum dia. Divide seu tempo entre à leitura, jogatina, trabalho, engenharia e quando sobra tempo, vive.

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