O número de jogos que utilizam o recurso de geração procedural vem crescendo cada vez mais, com a justificativa de “jogar sempre um jogo diferente” por parte dos desenvolvedores. Até agora eu não tinha visto algo realmente diferenciado em jogos que utilizaram o recurso, como No Man’s Sky e Necropolis, que mesmo partindo da premissa de jogos sempre diferentes ou uma gama maior de possibilidades em cada jogatina, esbarravam na repetitividade. Após a primeira campanha fracassada em Loot Rascals pensei que ele seria mais uma decepção, mas nesse caso a ideia de que o jogo fica melhor conforme você joga se confirmou e o game acabou por provar que ter sido feito em geração procedural foi, sim, a escolha certa.

O game do estúdio Hollow Ponds pode parecer simples e infantil olhando por cima, mas logo mostra o porquê de nunca podermos julgar um livro pela capa e entrega uma experiência diferente cheia de desafio e um sistema de batalha muito bem feito que se baseia quase que completamente na estratégia, mas que também te fará contar (e muito) com a sorte.

Em Loot Rascals você controla um viajante espacial que recebe a missão de resgatar o robô cabeçudo Big Barry, que ficou preso em uma dimensão que foi invadida por um vilão pandimensional chamado apenas de “A Coisa”. Essa dimensão, formada por cinco planetas, é repleta de criaturas que não são só um desafio ao jogador, mas também uma pedra no sapato d’A Coisa, que usa você para eliminar os chamados mauzões para ela. Ela faz um acordo com o personagem, mesmo que contra a sua vontade, e enquanto você estiver matando mauzões ela sempre te ressuscitará, mesmo que fazendo-o voltar ao primeiro planeta.

Seu objetivo é chegar ao último planeta e derrotar A Coisa, explorando as áreas aleatórias de cada um dos outros quatro e vencendo inimigos até encontrar o teletransportador que te leva ao próximo planeta. As áreas dos planetas são formadas por “pisos” hexagonais e um turno se passa quando você anda de um para o outro; você possui um número limitado de turnos para sair do planeta pelo teletransportador e caso demore demais, a morte é quase certa.

Farei uma breve explicação das regras para que você entenda como Loot Rascals funciona e como ele é bem feito:

Cartas Loot

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Para não ser morto e matar os mauzões você conta com cartas loot que são divididas entre ataque, defesa, especiais e cartas elementais. Você pode equipar até dez cartas, sendo que cada uma delas possui uma força principal (representada por um número no lado superior esquerdo), que é somada ao seu ataque ou defesa dependendo da carta, e também opções (os slots abaixo das imagens das cartas) que poderão dar mais força a ela ou à outras cartas loot dependendo de como você as organize e das cartas que você possua.

Uma carta pode tanto adicionar um único ponto ao seu ataque estando em um slot como pode adicionar 6 pontos estando no slot do lado. É necessário pensar bem enquanto organiza suas cartas para melhor aproveitá-las, usar a seu favor as opções positivas e anular as negativas. A profundidade da estratégia no jogo me surpreendeu principalmente neste quesito, já que você pode fazer muito mais do que apenas adicionar pontos ao seu ataque ou defesa.

Enquanto os dois tipos citados acima dropam aleatoriamente de inimigos comuns, cartas elementais dropam de inimigos elementais e podem ser equipadas em cima de outras cartas, não ocupando um espaço inteiro no slot. Elas nos possibilitam usar ataques especiais como uma labareda, corações que te curam, gosmas ou ondas de choque que afetam diversos inimigos, que funcionam de acordo com a força e fraqueza daquele mauzão.

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Cartas especiais dropam de mauzões de elite, inimigos muito mais fortes que geralmente te fazem chorar sangue. Estas cartas são mais raras e têm efeitos totalmente diferentes que não acrescentam nada ao ataque ou defesa, mas muitas vezes proporcionam justamente algo que você queria, como a carta equipada na imagem acima (a amarela), que aumenta sua vida máxima em 3 pontos e a não equipada que te permite largar bombas no cenário.

Poderão pertencer ao Chef que fica dentro da redoma no ponto que você spawna algumas cartas específicas que você encontrar. Caso você devolva a carta dele, ele te dará algo em troca, que geralmente é muito melhor do que o efeito que a carta dele tinha. Os mauzões roubam cartas ao te matar, por isso o chefe perde suas cartas e você também, podendo recuperá-las no futuro de um jeito muito legal.

Algumas cartas que dropam de inimigos fortes pertencem a outros jogadores que exploraram aquele mundo antes de você e foram mortos por aquele mauzão. Você pode ficar com a carta deles ou devolvê-la e é aí que entra uma das mecânicas mais legais de Loot Rascals: Se você manter a carta, um holograma do jogador voltará para se vingar e te atacará, já se devolvê-las ele poderá aparecer para te ajudar. É uma surpresa muito agradável encontrar um holograma quando se tem sido honesto.

Jogabilidade

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Loot Rascals conta com uma grande quantidade de inimigos que se comportam de formas completamente diferentes e que afetam as coisas a sua volta. Alguns deles até fogem quando estão para atacar e te atacam quando deveriam defender – alguns inimigos atacam durante o dia e se defendem a noite, cada ciclo dura cinco turnos-, mas estes confrontos nem sempre serão divertidos, e isso é culpa da geração procedural.

Apesar de ser aplicada da maneira correta em Loot Rascals, a aleatoriedade da geração procedural pode ser bem frustrante às vezes, justamente por não ter total controle ao que coloca para te enfrentar. Não é difícil encontrar inimigos com 50 de HP guardando áreas que deveriam contar com mauzões de, no máximo, 15 de HP, e nessas horas a única coisa a se fazer e aceitar a morte. Mais frustrante ainda se você já está no terceiro mundo e tem que voltar ao primeiro por um erro que não foi seu.

O fator sorte é também algo que, muitas vezes,  é mais forte do que deveria, sendo que você poderá atravessar áreas dropando apenas cartas de defesa e causando apenas 3 de dano em inimigos ou apenas cartas de ataque, pulverizando mauzões com um golpe mas morrendo com qualquer peido. Você não controla quais cartas droparão dos inimigos, só aceita as que aparecem na sua frente e tenta continuar em frente, mas nem sempre é possível. Quando o jogo decide que você não vai avançar,  não tem como contrariar.

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A aleatoriedade em Loot Rascals é um ponto positivo e negativo, torna sua jogabilidade extremamente divertida e desafiadora, assim como frustrante em alguns momentos. O lado bom é que mesmo nas partes frustrantes o jogo não te desestimula, muito pelo contrário, gera aquele sentimento de “só mais uma vez” já que você esteve tão perto de vencer na campanha anterior.

É fácil perceber que os desenvolvedores optaram pelo recurso dos hologramas ao invés de adicionar qualquer ferramenta de multiplayer ao jogo, mas eu gostaria muito de ver como Loot Rascals funcionaria em modo Co-op. Ao invés disso, temos outros modos além do standard que podem criar competições entre amigos e inclusive um modo que te deixa continuar na mesma seed – ou no mesmo universo – quando você morre, sendo possível recuperar as cartas perdidas e chegar ao fim do jogo mais facilmente.

Visual de “eu já vi isso em algum lugar”

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A arte de Loot Rascals é belíssima e com certeza te dará uma sensação de familiaridade. Isso porque o game conta com grupos de artistas de primeira linha nos bastidores, responsáveis por animações da Cartoon Network, incluindo Adventure Time, talvez a principal referência.

Os personagens principais lembram bastante o desenho da Cartoon e não só inimigos, como toda a ambientação é feita com a mesma qualidade. Apenas pelo visual podemos perceber se um inimigo é forte ou fraco, qual seu elemento, e se devemos correr dele imediatamente.

A interface geral de Loot Rascals também é muito bem feita. Mesmo com regras complicadas, tudo no jogo é organizado para que você entenda facilmente como fazer tudo, ele te fará morrer no máximo uma vez para cada inimigo para aprender como as coisas funcionam.

Loot Rascals, como dito, é aquele jogo que não se pode julgar apenas pela capa, e que, além de te prender completamente, mostra como a geração procedural deve ser usada. É um título surpreendentemente divertido, repleto de mistérios,  que me manterá entretido por muito tempo, mesmo eu não tendo certeza de quando conseguirei vencer o diacho do último planeta.

Review elaborado com uma cópia do jogo para PC fornecida pelo estúdio Hollow Ponds.

Rafael Oliveira faz análise de jogos, filmes e séries regularmente para o Critical Hits, além de postar notícias e artigos esporadicamente. Acha que Shadow of the Colossus é o melhor jogo já feito, é fanboy de Steins;Gate e tem um lugar especial no coração para Platformers, RPGs e Metroidvanias.

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