Metroidvanias ganharam meu coração assim que coloquei as mãos pela primeira vez em Symphony of the Night, ainda nos anos de ouro de PS1. Desde então tenho abraçado todo e qualquer jogo que tenha estes elementos e, até o presente momento, nenhum destes jogos me desagradou. Metroidvanias conseguem unir elementos de vários gêneros, cumprindo os “requisitos” estabelecidos por Metroid e Castlevania e ainda se destacam em algum aspecto que os torna jogos únicos e muitas vezes inesquecíveis.

Seja o combate divertidíssimo de Guacameelee; a rapidez de Strider; a elegância de Axion Verge; a história emocionante de Owlboy; a brutalidade de Salt and Sanctuary ou o universo magnífico de Ori and the Blind Forest, sempre haverá algo em títulos do gênero que nos faz lembrar deles com carinho, e o mais novo integrante dessa lista é o indie Hollow Knight.

Desenvolvido pelo estúdio australiano Team Cherry, Hollow Knight chama a atenção num primeiro momento por seu incrível visual, que utiliza arte 2D old school completamente desenhada a mão, mas guarda para aqueles que se interessarem por aquilo que ele tem a oferecer mais de 30 horas de desafio, combate refinado, áreas imensas para se explorar e uma infinidade de inimigos para pisarmos em cima.

O trailer acima não é capaz de demonstrar o quão envolvente o jogo é e como seus labirintos são igualmente frustrantes e recompensadores, é preciso jogar para sentir o quão frustrante é morrer várias e várias vezes para o mesmo chefe de cabeça quente – e mais frustrante ainda vencê-lo de primeira após uma pequena pausa para acalmar os nervos.

Perdido num mundo onde sua única amiga é a espada

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Hollow Knight não faz muita cerimônia com nada e mesmo guardando mistérios antigos e circundando o jogador com frases filosóficas inicialmente incompreensíveis, ele não perde para te largar às traças sem nenhuma pista do que fazer e pra onde ir. Tudo o que você sabe é que os habitantes de Dirtmouth deixaram a cidade, indo para o mundo subterrâneo de Hallownest em busca de fama, glória ou respostas. E é isso. Você é um desbravador, vai explorar este mundo abandonado independente do que os outros estiverem fazendo, então é largado lá, sem mapa, sem bússola e objetivo.

Toda essa liberdade pode parecer bacana, mas nas primeiras horas de jogo, quando você ainda não sabe o que te aguarda e como enfrentar as criaturas que habitam em Hallownest, a falta de um direcionamento pode tornar a exploração um verdadeiro saco, fazendo você percorrer o mesmo mapa cinco ou seis vezes procurando uma saída. Felizmente, Hollow Knight cumpre todos os pré-requisitos de um bom metroidvania, o que inclui passagens que só se abrem com habilidades específicas. Portanto cabe a você memorizar os lugares que você não pode passar e evitar voltar lá até que consiga uma nova habilidade.

É claro que você não anda às cegas o tempo todo, em cada área, após um pouco de exploração, você encontrará o explorador Cornifer, que te venderá o mapa daquela área por uma merrequinha. É um quebra-galho, a exploração quem faz é você e as surpresas e as repentinas boss fights que o jogo te reserva não podem ser previstas por nenhum mapa – também não há mudança de trilha sonora, baús de cura ou checkpoints antes delas ;p

Como você deve imaginar, o mapa geral de Hollow Knight é formado por áreas interconectadas, mas mesmo algumas delas sendo bloqueadas, é possível que jogadores tenham experiências totalmente diferentes dependendo do modo que eles explorem estas áreas. Há atalhos secretos, quase sempre antecedidos por um chefe escondido, que abrem novas possibilidades e zonas secretas que descobrimos sem querer querendo que despertam ainda mais aquela vontade de se jogar de cabeça em cada canto de cada área só pra ver se ali há uma passagem.

A procura do checkpoint perfeito

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Hollow Knight causa um desconforto diferente conforme você explora Hallownest, parte pela grande quantidade de inimigos e demais obstáculos, mas principalmente por duas coisas que geralmente te farão querer jogar o controle na parede: os checkpoints e a sua alma.

Os locais onde você pode salvar o jogo aqui são extremamente escassos, tendo cada área no máximo dois ou três checkpoints disponíveis para você. Eles são banquinhos onde o personagem pode tirar um pequeno cochilo e recarregar as energias, atualizar seu setup de equipamentos e dar uma nova olhada o mapa que só é atualizado quando chegamos ao checkpoint. A distância entre um banquinho e outro é gigantesca e você tem que fazer o impossível para não morrer no meio do caminho para não perder seu progresso e seu suado dinheiro, que é o que acontece quando você é derrotado.

Ao morrer e renascer no checkpoint, você poderá ver no mapa atualizado um espectro preto exatamente no ponto onde você foi morto (você já viu algo assim antes, né?). Também perceberá que o frasco que permite que seu personagem recarregue a vida está quebrado e seu dinheiro – aqui representado por pedrinhas chamadas geo – desapareceu. Sim, o pedaço do frasco e o dinheiro estão com o espectro e você terá que derrotá-lo para pegar tudo de volta. Vencê-lo não é grandes coisa, o maior problema está em morrer antes de alcançar o espectro e absorver tudo –  nesse caso, dê tchau para todo o seu dinheiro.

Indie com jogabilidade de AAA

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O game conta com algumas mecânicas básicas bem originais, como a energia branca que preenche nossa vida. A vida total do personagem é representada por pequenas cabecinhas brancas e ao lado delas há um frasco, que se enche conforme golpeamos inimigos. São necessárias algumas doses para preencher cada “cabeça de vida” e ao esvazia-lo temos que procurar novos inimigos pra encher de porrada e voltar a enche-lo, prolongando nossa vida ao máximo.

Inicialmente você terá apenas sua simples espada e nada mais para cuidar dos vermes malditos de Hallownest e isso será suficiente. O desafio evolui de maneira perfeita, fazendo você dominar todos os movimentos que a arma básica permite até te entregar uma nova habilidade, esta que sempre poderá ser usada em conjunto com outra, fazendo o ciclo de aprendizado recomeçar e nós nos interessarmos ainda mais pelo que vem a seguir.

Dá pra dizer que a jogabilidade de Hollow Knight é, em sua maior parte, sobre identificar o padrão de ataque dos inimigos, o que não significa que você terá alguma facilidade após identificá-los. É sempre necessário morrer algumas vezes em cada chefe para poder definir em quais momentos é possível atacar e quando seria mais sábio parar para recarregar a vida. Inimigos comuns, como já dito, têm seus próprios estilos e padrões, é sempre necessário usar o cenário e as novas habilidades a seu favor para enfrentar cada um deles.

Os momentos mais gloriosos de Hollow Knight são, sem dúvida alguma, quando somos recompensados com uma nova habilidade após derrotar um dos impossíveis chefes do jogo. Pelo nível de desafio nestas partes, as habilidades vêm como um prêmio e o mais animador é que conseguimos saber logo de cara onde aquela habilidade será útil e então seguir direto para aquela área. Algumas delas utilizam a mesma energia branca que usamos para recarregar a vida, outras dão mais dano mas tornam o personagem mais lento; é sempre necessário saber qual o melhor momento para usar cada uma delas.

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Você ainda pode utilizar charms para melhorar algum atributo do seu personagem. Os coletamos vencendo inimigos mais fortes que os comuns ou em áreas de difícil acesso e cada um deles tem um custo diferente e uma função única que pode ser de grande ajuda ou completamente inútil dependendo do seu estilo próprio.

Hollow Knight é um jogo de combate com espadas que se baseia muitas vezes no timing e eu sou um tipo de jogador que presa sempre pela pancadaria desenfreada, portanto meu setup de charms é composto por pedras que melhoram a defesa quando estou me curando (já que perco muita vida) e aumentam a agilidade. Você poderá encontrar uma combinação que bata com seu perfil e torne sua vida mais fácil.

Inimigos que não acabam mais

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Hallownest é repleta de inimigos que querem sempre acabar com a sua raça, todos eles possuem visuais únicos, estilos de ataque e defesa diferentes e, consequentemente, formas diferentes de ser derrotados. Enfrentar tipos diferentes de inimigos de uma só vez é a pior escolha que você pode fazer e sua morte será quase certa, já que apenas um deles é perigo suficiente para se preocupar.

São mais de 130 espécies no total, todos insetos, com algumas derivações dentro de sua própria espécie. Alguns deles são bem fofos e inofensivos, já outros chegam a dar aquela sensação de “tem uma barata na minha perna” de tão nojentos. O design dos inimigos é de uma qualidade altíssima e sempre teremos que enfrentá-los com cautela para decorar seu estilo de comportamento e definir uma estratégia para derrotá-lo. Sim, é necessário usar a cabeça para lidar com a grande maioria dos inimigos comuns do jogo.

Os chefes também são um desafio de fazer chorar sangue, exigem que você decore seus movimentos e suas fraquezas – e morra duas ou três vezes até conseguir derrotá-los. Talvez o ponto mais baixo de Hollow Knight esteja na falta de checkpoints próximos desses chefes, sendo que geralmente eles ficam em uma distância considerável, te obrigando a enfrentar todos os inimigos novamente pelo caminho sob o risco de morrer antes de recuperar o espectro e perder todo o dinheiro.

A distância entre os checkpoints e os pontos de boss fights foi suficiente para me fazer desistir várias vezes, só voltando ao jogo no dia seguinte. Se foi intenção dos desenvolvedores ou não, isso eu não sei, mas é fato que ao desistir e retornar depois ao jogo você consegue pensar com muito mais clareza e vencer os chefes com uma facilidade impressionante sem passar o nervoso das primeiras tentativas. Durante minha jogatina isso se repetiu não uma, mas várias vezes.

Arte que é o puro creme do milho verde

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É impossível não se apaixonar pela riqueza de detalhes e cores que os gráficos de Hollow Knight nos entregam. Cada área possui visual e atmosfera únicos, sempre repletas de detalhes na superfície e no background e completamente vivas povoadas pelos inimigos que não dão descanso. Tratando-se de level design, Hollow Knight é um acerto após o outro, seus cenários são muito bem criados e dão uma experiência especial com pequenos detalhes como plataformas que sentem o impacto do personagem, névoa que dificulta a visibilidade, escuridão que esconde o que está à nossa frente e inimigos que se camuflam com o próprio ambiente.

Além disso, o visual dos NPCs também deve ser destacado, já que, assim como todos os inimigos, cada um deles tem uma aparência e jeito de ser diferentes e uma história própria. É possível que você se lembre da localização de um NPC específico dentro do grande mapa do jogo apenas pensando em sua aparência, esta é a importância do visual único de cada um deles.

Os combates são um espetáculo a parte, sempre colocando o brilho da espada do personagem como protagonista. A interação da espada com os diferentes tipos de inimigos sempre nos faz querer lutar mais e mais e a reação dos inimigos com os golpes dessa espada podem ser uma surpresa e tanto (na maioria das vezes desagradável para nós).

Hollow Knight: O veredito

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Hollow Knight é um espetáculo de jogo, que vai fazer você passar raiva e sentir alegria ao morrer e vencer o mais simples dos inimigos. Certamente concorrerá a prêmios de direção de arte no futuro, mas não é um título que agrada apenas na aparência, mas também nos combates e na quantidade de conteúdo que entrega àqueles que têm vontade de explorar cada canto de seu imenso mapa.

Assim como todo metroidvania, ele possui elementos consagrados pelos jogos que deram origem ao gênero e também aspectos próprios que o tornam um jogo completamente único – se bem que eu não decidi qual destes aspectos é o mais importante. Se você é fã de platformers, metroidvanias, gostou de algum dos jogos citados no começo deste review ou preza por títulos com combate acurado e riqueza de detalhes,  Hollow Knight é um must play pra vida.

Review elaborado com uma cópia do jogo para PC fornecida pelo Team Cherry.

Rafael Oliveira escreve no Critical Hits sobre quadrinhos, cinema e séries de TV, além de games. Acha que Shadow of the Colossus é o melhor jogo já feito e tem um lugar especial no coração para Platformers, Musou e Metroidvanias.

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