– “Eu não gosto do Jurandir Filho.”

Foi com essa frase que teve início a minha primeira interação com o que viria a se tornar o jogo do 99 vidas. Tive a oportunidade de experimentar um protótipo do game durante a BGS de 2015 acompanhado de Bruno Carvalho, um dos hosts do podcast e consequentemente um dos personagens atualmente disponível no game.

Na época o jogo contava somente com dois personagens baseados nas personas de Jurandir Filho e Izzy Nobre. Apesar de muita coisa ter sido adicionada de lá para cá, o estilo do game e a pegada nostálgica já haviam sido definidas com maestria.

O 99 vidas é um dos podcasts mais tradicionais do Brasil e talvez seja também o maior relacionado a conteúdo de jogos em geral. No ar desde 2012, o programa comandado por Jurandir Filho, Izzy Nobre, Evandro de Freitas e Bruno Carvalho conquistou uma verdadeira legião de fãs pelo Brasil a fora, inclusive este que vos escreve. E como qualquer podcast que se preze, o programa sempre está repleto de piadas internas baseadas no próprio conteúdo de alguns episódios, nos trejeitos dos participantes e nas histórias inacreditáveis contadas de vez em quando. Alguns casts aproveitam esse conteúdo original para celebrar episódios especiais enquanto outros, simplesmente juntam tudo num jogo repleto de referências.

Mas que graça tem um jogo baseado somente nas referências do programa. De fato, nenhuma. A sorte é que o jogo do 99 vidas é muito mais do que isso. É também uma grande homenagem aos clássicos jogos de beat n’ up dos anos 90 capaz de fazer qualquer marmanjo chorar de nostalgia. Até por que, nostalgia é o ponto forte desses caras.

O primeiro grande ponto do jogo são os gráficos. Obviamente não estamos tratando aqui de um jogo “AAA”, ou com qualidade gráfica de última geração, até por que isso não faria sentido nenhum. O game do 99 vidas possui um visual que lembra bastante os antigos games de Super Nintendo e Mega Drive, mas com uma pegada mais moderna e agradável. As animações dos sprites dos personagens são muito bem-feitas e tornam a movimentação dos objetos na tela um verdadeiro deleite aos olhos.

Para não deixar aqueles jogadores que não conhecem muito do “universo” do 99 vidas na mão, um pequeno enredo foi adicionado ao game. Obviamente que o jogador não habituado a ouvir o podcast com certa frequência não vai aproveitar todo o potencial do game, já que as fases, chefões e até alguns inimigos e acontecimentos são totalmente baseados nas anedotas e estórias contadas pelos participantes.

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A jogabilidade também tem uma pegada mista entre o estilo consagrado nos “briga de rua” clássicos de rodoviária e um sistema mais moderno, baseado em alguns jogos mais atuais, pois é possível utilizar os pontos que você ganha descendo o braço nos adversários para comprar algumas melhorias para o seu personagem, algo bem parecido com aquilo que se vê em jogos como Castle Crashers, por exemplo. Eu sempre me perguntava quando era mais novo se existia alguma outra serventia para a pontuação se não para marcar o seu nome no ranking da máquina. A ideia é tão boa, que fica até difícil imaginar jogos desse estilo sem essa funcionalidade sendo lançados no futuro.

Sendo assim, o jogador pode deixar seu personagem favorito mais forte conforme avança no game. Não são tantas as melhorias disponíveis e pode ser que mais novidades sejam adicionadas em atualizações futuras, mas de qualquer forma a novidade dá um gás adicional ao game principalmente pela vontade que se sente em atingir o nível máximo com todos os personagens.

Outro detalhe inovador é a possibilidade de se jogar o game em até 4 pessoas simultaneamente. Quem visitou algum fliperama durante a infância deve lembrar que as maquinas mais caras eram justamente aquelas que permitiam uma quantidade maior de jogadores e sendo assim, talvez não seja todo mundo que teve a oportunidade de jogar um jogo desse estilo com mais de um amiguinho por vez. Por mais que eu goste de me aventurar sozinho por aí, confesso que qualquer beat n’ up fica muito mais legal quando jogado em mais gente.

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Por outro lado, a quantidade de personagens jogáveis surpreende, já que conforme o jogador avança vai “desbloqueando” lutadores secretos. No total, são 8 personagens desbloqueáveis além dos 4 principais iniciais. Todos eles também são baseados no universo do 99 vidas e contam com as funcionalidades de aprimoramento de habilidades. Ah, também existem algumas fases secretas escondidas pelo meio do caminho que também são muito bacanas principalmente por que abordam temas muito comuns para a criançada que viveu intensamente os anos 80 e 90.

Outro detalhe que eu não poderia deixar de comentar é a trilha sonora do game. Como já citei anteriormente, o jogo é uma grande homenagem aos briga de rua do Super Nintendo e do Mega Drive. O jogo inteiro é muito competente na homenagem, mas a trilha sonora é realmente um caso à parte. Foram tantos elementos que me fizeram lembrar de diversos temas relacionados a minha infância, que eu nem sei como elencar. A composição da trilha sonora é na verdade, uma grande mistura de componentes nostálgicos que lembram bastante as músicas de Streets of Rage 2, até a abertura de Yu Yu Hakusho e para mim, a diversão não seria a mesma caso a soundtrack tivesse sido construída de maneira diferente.

Além disso também existem outros pequenos detalhes que fazem do jogo uma experiência memorável. Os protagonistas citam frases célebres proferidas durante os programas e a aparência dos heróis tem relação com os personagens preferidos de cada um.

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O único problema que percebi no jogo do 99 Vidas é que ele talvez não agrade tanto àqueles que nunca ouviram o programa. Não por que o game fique devendo alguma coisa, mas sim por ele ser na verdade um grande tributo não só ao próprio podcast, nas também ao ouvinte que segue o programa regularmente, como este que vos escreve.

Caso você nunca tenha se dado a oportunidade de acompanhar o trabalho dos caras, vale a pena conferir. E acredite, eu não falaria bem da “concorrência” caso não valesse a pena. Pode ter certeza que o game terá outra perspectiva para o jogador que souber exatamente o que significa o grito de “comidinhas” do Jurandir Filho quando ele recupera vida com os alimentos que aparecem no decorrer das fases.

O 99 vidas é com certeza uma das melhores mídias relacionadas a vídeo games atualmente disponíveis no Brasil. O jogo na verdade só segue com o bom trabalho dos caras e tem o mesmo cuidado e o mesmo zelo pela qualidade que são observados na produção dos episódios. O único problema do jogo – além de talvez não ser tão interessante para aqueles que não acompanham o trabalho dos caras, é o gostinho de quero mais que fica ao se terminar a última fase do game. Mesmo assim, a experiência vale muito tanto para os fãs do programa quanto para quem procura um bom jogo beat n’ up.

Por fim, só queria agradecer ao Bruno Carvalho pela atenção que ele dedicou a mim e ao Cris durante a BGS ano passado e registrar aqui que sou realmente fã do trabalho dos caras.

Review elaborado com uma cópia do jogo fornecida pela desenvolvedora.

João Víctor Balestrin Sartor é colaborador e sex-symbol do Critical Hits. Admirador das boas histórias, almeja de verdade escrever um livro algum dia. Divide seu tempo entre à leitura, jogatina, trabalho, engenharia e quando sobra tempo, vive.

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