Antes de qualquer coisa, perdão pelo atraso. Tive que assistir a série duas vezes antes de conseguir escrever qualquer coisa sobre. O último episódio, assisti quatro vezes. Parte de mim procurando respostas e/ou justificativas (aliás, temos um post bacana sobre isso que você pode ver aqui), e parte tentando entender esse turbilhão de emoções, e como isso seria interpretado pelas pessoas com suas individuais lutas e histórias.

Pra quem não assistiu, os 13 Porquês contam a história de Hannah – ou melhor, do suicídio dela, e de 13 motivos que a levaram a tirar a própria vida. É baseado num best seller de mesmo título (que aliás, antes que me xinguem, eu ainda não li), e vem gerando muitas discussões entre psicólogos, psiquiatras, imprensa, e o público geral.

Se você não assistiu e não gosta de spoilers, sugiro que você volte a página inicial do Critical Hits e escolha um outro artigo para ler, porque eu sou péssima nesse negócio de “não entregar demais”.

Tecnicamente falando, a série é uma boa produção do NETFLIX. Me lembrou muito “As Vantagens de ser Invisível” (que aliás é ótimo) em diversos momentos, tem uma boa direção e uma fotografia bonitinha. O elenco tá bacana e os personagens são bem estereotipados com base nos clássicos personagens da “High School” americana. Mas, nada que não seja adaptável para qualquer realidade, porque a maioria das pessoas que eu conheço (e me incluo nessa) já sentiu ou passou por algo parecido relatado em uma das 13 fitas.

O grande problema – e o centro da questão – foi o suicídio. Sim, nós PRECISAMOS falar sobre suicídio. Nós PRECISAMOS falar sobre bullying e sobre estupro. Esses dias vi que as ligações para o CVV aumentaram em 400-e-lá-vai-quebrada% depois do lançamento da série. ÓTIMO. Nós precisamos saber que não estamos sozinhos, ou que pelo menos, se estamos todos sozinhos, estamos todos juntos nessa (pra citar Kathy Bates).

Todas as 12 primeiras fitas, achei em absoluto necessário e profundo. Essa experiência causa desconforto? Causa. Mas a grande maioria das mudanças surgem a partir do desconforto, e precisamos lembrar, que para cada Hannah que existe, existem 10 (ou mais) Bryces – e estes, PRECISAM assistir essa série.

Tem gente que ficou super mal, e eu entendo, de verdade. Gente que sentiu o toque da depressão de perto. Gente que sabe genuinamente o que a Hannah quis dizer com “Quero que tudo pare”. Gente que inclusive me arrisco dizer (sem nenhum embasamento médico, claro) que não deveria assistir a série. Mas temos que ir além.

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A história de Hannah é f***. A menina nova na cidade que sofreu abuso de tudo quanto é lado (inclusive de si mesma). Mas ela não é a única história contada.

Zach por exemplo, pra mim representou o clássico menino popular que não acredita em nada daquilo. E quantas máscaras às vezes usamos pra nos encaixar em determinado grupo/padrão, não é mesmo?

Tyler era o menino pra quem ninguém dava a mínima. E quem viu o arsenal que ele guarda no último episódio sabe os perigos que isso pode causar – aliás, essa história é a minha aposta para uma segunda temporada.

A Jéssica, a menina cool que bebe na escola. Ela é, na verdade, a menina que foi estuprada e luta pra não admitir que isso aconteceu. E como FUGA (quantas vezes a gente já fez algo parecido?) coloca vodka na garrafa d’água e os coleguinhas acham engraçado.

Courtney, a menina que não se aceita, Justin, o clássico agredido que vira agressor, Marcus querendo ser o bacana, entre tantos outros. Personagens fictícios tão reais, que reconhecemos tantas vezes.

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O próprio Clay, que demorou uma eternidade para ouvir as benditas fitas. Por quê? Por empatia, talvez. Ou porque tenha sido tão difícil pra ele ouvir, quanto pra ela gravar. Todo mundo passa a vida lutando com os seus próprios demônios e é terrivelmente assustador reconhecer que podemos ser um dos demônios na vida de alguém.

Do Bryce eu não vou nem falar nada, porque pra mim não importa o tipo de agressão ou descaso sofrido. NADA justifica estupro. Mas, quantos playboys a gente vê por aí achando que o dinheiro compra a impunidade?

Não posso deixar de falar da atuação e posicionamento dos personagens dos pais nisso tudo. Kate Walsh (querida Addison Montgomory) como mãe de Hannah está impecável – se não fosse a concorrência do elenco de Feud, arriscaria já dizer que o próximo Globo de Ouro seria dela.  Mark Pellegrino (o Lúcifer, de Supernatural) também tem sua importância como o pai rígido de Alex. O pai militar, policial, protetor e assustador ao mesmo tempo.

Os pais de Clay na minha opinião, viveram a maior das dificuldades. Amy Hargreaves (Homeland), mãe de Clay, sabia que havia algo errado com o filho. Porém, Josh Hamilton (American Horror Story), pai de Clay e educador, quis preservar a privacidade do filho, por entender, que adolescentes passam por uma “fase” de autodescoberta dolorosa, e por achar que isso seria normal. É uma linha tênue, não é? Até quando os pais de Clay estavam certos em preservar a privacidade dele, ou até onde o pai de Alex foi super protetor e rígido demais pra não perceber o que estava acontecendo em sua própria casa?

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Como já disse, vi o último episódio quatro vezes. A série deixa vários ganchos para uma possível continuação. O arsenal de Tyler, a tentativa de suicídio de Alex (e sua relação com Zach, que recebeu mensagens vindas do celular de Alex pouco depois dele tentar se matar), e até mesmo um final alternativo com a sobrevivência de Hannah (considerando o que apontamos aqui). O que realmente me incomodou muito, e me incomoda cada vez que revejo o episódio, é a cena do suicídio.

É sabido pela imprensa geral – e vários artigos já foram publicados sobre isso – que cenas explícitas de suicídio não devem ser publicadas, pois podem servir de gatilho (e às vezes até mesmo “tutorial” pra quem está passando por um momento terrível).

É de extrema importância ressaltar o perigo disso. Os 13 Porquês traz uma mensagem de advertência apenas nos últimos episódios, quando a série mostra cenas de estupro e suicídio – quando o espectador já está absolutamente envolvido com a trama. Nesse quesito, a NETFLIX errou feio. A advertência pelo menos deveria vir desde o primeiro episódio. E a cena do suicídio: não precisava.

Hannah podia ter ido pra casa, arrumado o quarto, e pronto, já sabíamos o que o Clay iria contar a seguir para o conselheiro do colégio. Há quem diga que o choque é necessário, mas amigos, de verdade, vocês precisam ter ideia de quantos desses documentários de “conscientização” servem como gatilho e ensinam na verdade comportamentos nocivos.

13 REASONS WHY
13 REASONS WHY

Há um tempo, a HBO fez um documentário (não vou citar o nome propositalmente) sobre distúrbios alimentares. Se vocês soubessem, a quantidade de pessoas que utilizam esse material como fonte de “dicas” para emagrecer, vocês ficariam assustados. E esse é só um exemplo, um que eu conheço bem, e por isso citei.

13 Reasons Why é uma série extremamente explícita e assustadoramente realista. Se pararmos pra pensar e aprofundar o pensamento, é uma série interpretativa onde cada um de nós se encaixa em um dos personagens em determinado momento.  É um sucesso assustador, que vem preocupando a comunidade médica, e ao mesmo tempo, ajudando muita gente. É uma obra de dor e empatia, necessária e não recomendada à todos.

“As vantagens de ser invisível” e  “Precisamos falar sobre Kevin” já abordaram, também, muitas das questões que os 13 Porquês aborda. E é por isso que tive tanta dificuldade em escrever qualquer coisa sobre a série. Porque não tenho certeza. Se ela deveria ou não ter ido ao ar, se deveria ou não ser tão explícita. Pra quem tem uma queda por obras sobre transtornos psicológicos (prazer, eu), e não sofre nenhum tipo de depressão, eu recomendaria. Mas como a gente vai saber? Pra mim doeu, mas não foi gatilho. Pra mim, não se deve calar o suicídio – mas também não precisa escancarar. Pra mim, os 13 Porquês é de uma ambiguidade sem tamanho, e talvez eu seja meio “Clay” e não tenha absorvido todos os ângulos ainda, mas não recomendaria pra ninguém – e em contraponto, jamais deixaria de assistir(?).

E vocês, o que acharam?

Juliane Marrone é redatora de cinema e TV do Critical Hits

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